Reflexões

O Preço de Ser Quem Se É

Quando ser aceito custa a própria essência.

12/04/2026 às 01:01 Edição № 027/ 2026 19 leituras
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O Preço de Ser Quem Se É

A felicidade, muitas vezes, é vendida como um destino universal — algo que todos devem alcançar, ainda que por caminhos diferentes. Mas raramente se fala sobre o preço que se paga por ela. No caso de Pedro, esse preço foi alto demais: ele abriu mão de si mesmo.

Desde cedo, Pedro aprendeu que para ser aceito, precisava se moldar. Ajustou suas opiniões, silenciou seus desejos e reprimiu aquilo que o tornava único. Em troca, recebeu aprovação, pertencimento e uma sensação passageira de felicidade. No entanto, essa felicidade era frágil — construída não sobre quem ele era, mas sobre quem esperavam que ele fosse.

Com o passar do tempo, algo começou a mudar. Pedro já não sentia as coisas com a mesma intensidade. As alegrias eram mornas, as tristezas distantes. Ele havia se tornado funcional, mas vazio. A cada escolha feita para agradar o mundo, afastava-se mais de si mesmo — até o ponto em que já não sabia quem era de verdade.

A reviravolta acontece quando ele encontra um antigo diário — seu “daily”. Ali estavam registradas versões mais autênticas de si: sonhos esquecidos, opiniões sinceras, sentimentos vivos. Ao reler aquelas páginas, Pedro percebe o quanto havia se perdido. E, pela primeira vez em muito tempo, sente algo real.

Esse reencontro consigo mesmo marca o início de uma transformação. Pedro passa, então, a fazer escolhas por si — não mais pelo mundo. Mas essa decisão tem um custo: as pessoas ao seu redor estranham, afastam-se, rejeitam essa nova versão. Afinal, ele já não corresponde às expectativas que antes sustentava.

Ainda assim, Pedro continua. Porque, dessa vez, há algo diferente: verdade. Ao se permitir ser quem realmente é, ele descobre o amor próprio — não como um conceito idealizado, mas como um exercício diário de honestidade consigo mesmo.

No fim, Pedro entende que fingir ser feliz por toda a vida custa caro demais. Custa a própria essência, os próprios sentimentos, a própria existência. E, embora ser autêntico também tenha seu preço — solidão, rejeição, desconforto —, esse é o único caminho que não cobra a alma em troca.

A verdadeira felicidade, portanto, não está em se ajustar ao mundo, mas em ter coragem de existir apesar dele.


E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 027

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