Quando Ela Se Sente Amada
Ela, escolheu amar!
Ela, quando se sente amada,
transparece sem saber
aquilo que guarda em abundância
dentro de si.
Há nela
um jeito diferente de existir,
como se o coração,
depois de tanto silêncio,
finalmente encontrasse
uma voz.
E então ela se entrega.
Entrega o coração,
os silêncios,
os medos,
os sonhos íntimos
que escondia de todos
e guardava somente para si.
Não por obrigação.
Mas porque encontrou
um lugar onde não precisa
se esconder.
Caindo em meus braços,
regozija-se.
Sorri sem medo.
E, por um instante,
deixa cair do rosto
tudo aquilo que o mundo
lhe ensinou a vestir.
Sem maquiagem,
sem holofotes,
sem agendas,
sem relógios
e compromissos.
Somente ela.
Somente nós.
E o tempo,
que antes corria apressado,
parece esquecer-se de nós.
Os ponteiros param
como um velho relógio
em uma antiga estação de trem,
onde ninguém mais espera
por partida alguma.
Ali,
somente o nosso tempo existe.
E há beleza
em vê-la sendo ela mesma.
Na simplicidade do sorriso,
na imperfeição dos gestos,
na fragilidade que já não esconde.
E talvez seja isso
o amor:
a certeza silenciosa
de que, finalmente,
não estaremos sozinhos.
Ela encontra o amor
florescendo em si.
E eu encontro,
diante dos meus olhos,
o espetáculo mais bonito:
vê-la amanhecer.
Depois,
ela começa a me procurar
mesmo quando não estou.
Encontra-me
em uma música,
em um pensamento distraído,
em uma lembrança qualquer,
na saudade
que chega sem pedir licença.
E talvez eu nem saiba
quantas vezes
estive em seus pensamentos.
Mas sei que,
em algum lugar dentro dela,
também amanheço.
Porque quando o amor
se torna abrigo,
o desejo deixa de ser
apenas desejo.
Torna-se permanência.
Vontade de dividir os dias,
as noites,
os pequenos acontecimentos
que ninguém mais percebe.
Torna-se vontade
de fazer do outro
um lugar para voltar.
E então
ela não quer apenas
estar comigo.
Quer estar
por inteiro.
Não porque deixou
de ser quem é.
Mas porque descobriu
que pode ser inteira
ao lado de alguém.
Sem esconder
suas fraquezas.
Sem medir
seus sentimentos.
Sem fugir
quando sentir demais.
Porque quando uma mulher
se sente verdadeiramente amada,
ela não precisa
se perder em alguém.
Ela se encontra.
E, ao se encontrar,
descobre que seu maior desejo
não é pertencer.
É escolher.
Escolher ficar.
Escolher amar.
Escolher entregar,
todos os dias,
um pouco mais de si.
Não porque alguém
a possui.
Mas porque encontrou
alguém diante de quem
seu coração pode dizer:
eu poderia ir,
mas escolho ficar.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 083
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