Onde a Saudade Aprende Meu Nome
Um poema sobre a distância, o amor que permanece e a descoberta de que algumas presenças jamais se despedem.
Oh! Bela Amada
Andaste tão serenamente por minha vida
que mal percebi o instante
em que deixaste de ser caminho
para tornar-te eternidade em mim.
Viste minha ambiguidade,
meu silêncio escondido entre palavras,
e fizeste daquilo que era sombra
uma inesperada alegria.
Não nego minha confusão.
Também não nego minhas certezas.
Há verdades que florescem justamente
no solo da dúvida.
Agora estás longe.
E a solidão,
que antes era apenas ausência,
aprendeu teu nome
e sentou-se ao meu lado.
O sol continua nascendo.
A chuva continua voltando.
O tempo segue seu ofício.
Só a saudade parece ignorar os relógios.
Enquanto isso,
finjo ser poeta,
como se as palavras fossem capazes
de alcançar o lugar
onde minhas mãos já não chegam.
Pergunto à vida:
Por que estás longe de mim?
E a vida, silenciosa,
não responde.
Ainda assim,
sei que habitas dentro de mim,
como a luz permanece no horizonte
mesmo depois do pôr do sol.
Basta fechar os olhos
e caminhar para dentro da alma,
onde a distância perde o sentido
e o amor deixa de precisar de caminhos.
Ah, bela amada...
A vida talvez seja apenas isto:
um lento aprendizado
de compreender o outro
sem deixar de descobrir a si mesmo.
Quando desistimos da verdade,
desistimos também
daquilo que poderíamos ser.
Nada é impossível.
Cada amanhecer revela
um pedaço desconhecido de nós.
Talvez o imperfeito
seja apenas a maneira
que Deus encontrou
de nos ensinar a desejar o infinito.
Hoje já não temo errar.
Aprendi que quem ama de verdade
sempre encontra o outro,
ainda que seja apenas
na memória, na esperança
ou na oração silenciosa.
Assim como atravessaste
minhas incertezas sem julgá-las,
aprendi a amar-te
a partir delas.
Levo-te em meu coração.
Tu és caminho.
Eu, sem teu amor,
sou apenas um viajante
procurando sentido.
Mas teu sorriso me fortalece.
Teu olhar ilumina meus passos.
Teu toque permanece vivo
onde o tempo já não alcança.
E compreendo, enfim,
que o verdadeiro amor
não apaga as feridas.
Ele as transforma em luz.
Porque não vivo apenas para amar-te.
Vivo para aprender
que amar
é também permitir-se
ser amado.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 078
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