Essa Noite
Há noites em que o mundo parece barulhento demais, e tudo o que desejamos é silêncio. Entre a vontade de desaparecer por algumas horas e o desejo secreto de ouvir uma voz do outro lado do telefone, nasce esta poesia — um diálogo íntimo entre a madrugada,
Essa noite não preciso de nada,
nem de ninguém.
E talvez,
nem de mim mesmo.
Só preciso calar a boca,
fechar os olhos
e dormir em paz.
Não pensar em coisa alguma,
apenas esperar que alguém ligue,
tarde da noite,
para contar como foi o seu dia.
A essas horas,
não sei se me ligaria
ou se, por acaso,
ligaria para mim.
Talvez eu não pertença a este mundo,
onde se exige que tenhamos
os pés sempre no chão
e onde falsos anjos
insistem em nos mostrar o caminho.
Queria que este dia nunca terminasse.
Que o sol continuasse brilhando
como se ainda fosse madrugada,
e que as estrelas permanecessem acesas,
ardentes,
como um desejo incrédulo
de que alguma coisa ainda pudesse acontecer.
Mas o sol se põe.
E a noite chega.
E amanhã o dia será novamente quente,
apressado,
cheio da correria de sempre.
Todos acordam.
Todos seguem.
Todos repetem
os mesmos gestos,
os mesmos caminhos,
os mesmos padrões.
E eu...
continuo dormindo.
Talvez porque dormir
seja a única maneira
de não acordar
para a monotonia
deste mundo.
Enoque Mendes
Escrito e editado em Goiânia, Goiás
