A Luz Depois do Escuro
Sobre os amores que passam pela vida, mas permanecem na alma.
Houve um instante
em que você chegou
sem fazer barulho,
e alguma coisa em mim
que há muito tempo dormia
abriu os olhos.
Não sei dizer
se foi amor,
se foi acaso,
ou se Deus,
em algum lugar entre o céu e o silêncio,
já havia escrito nossos nomes
na mesma página.
Só sei que você chegou
como chega a luz
quando encontra uma janela esquecida:
Simplesmente entrou,
sem perguntar se podia entrar,
simplesmente iluminando.
E foi tão forte
que roubou o sol
da minha própria vida.
Não porque o dia tivesse acabado,
mas porque, depois de você,
descobri que existiam
outras formas de amanhecer.
Você pôs mil estrelas no céu
e me fez acreditar
que algumas delas
tinham sido acesas
só para que eu pudesse
enxergar você.
Mas entre todas as estrelas,
havia duas
que jamais consegui esquecer.
Seus olhos.
Eles não apenas brilhavam.
Eles diziam.
Diziam coisas
que sua boca talvez não soubesse dizer,
segredos que o silêncio escondia
e que meu coração,
por alguma razão,
sabia traduzir.
Talvez por isso
eu nunca tenha conseguido
olhar para você
sem sentir que estava diante
de alguma coisa maior
do que eu.
Como se o universo
por alguns segundos
coubesse dentro de um olhar.
E eu quis ficar.
Quis morar naquele instante,
onde o tempo não nos alcançava
e o mundo não tinha importância.
Quis te amar
nos lugares mais doces dos meus sonhos,
mas também nos dias difíceis,
quando o amor deixa de ser promessa
e passa a ser escolha.
Porque descobri que amar
não é somente desejar alguém
quando tudo é bonito.
É continuar
quando a beleza desaparece.
É segurar a mão
quando já não existem palavras.
É olhar para as feridas
sem transformar a dor
em motivo para partir.
É dizer sim
quando o coração deseja,
mas também ter coragem
de perguntar a Deus
se aquele sim
é realmente o caminho.
E quantas vezes
pedi essa certeza...
Uma certeza que nunca veio inteira.
Talvez porque a vida
não tenha sido feita
de certezas.
Talvez a esperança
seja justamente isso:
continuar caminhando
mesmo quando não sabemos
onde termina a estrada.
E eu caminhei.
Entre desilusões
e pequenos milagres.
Entre o medo de perder
e a coragem de amar.
Entre aquilo que eu queria
e aquilo que a vida
estava disposta a me dar.
Foi então que entendi:
há sentimentos
que não cabem na razão.
Como minha mão encontra o violão
sem que eu precise pensar
onde estão as cordas,
como meus dedos
procuram naturalmente
o caminho da música,
assim também meu corpo
parecia conhecer o seu.
Minha mão encontrava você.
Meus dedos encontravam sua pele.
Minha boca procurava a sua.
E, por alguns instantes,
não éramos dois.
Éramos apenas
uma música acontecendo.
Talvez seja isso
que os corações apaixonados procuram:
não alguém que os complete,
porque ninguém deveria nascer incompleto,
mas alguém com quem possam
dividir o peso de existir.
Alguém que faça o caminho
parecer menos solitário.
Alguém que, mesmo sem prometer eternidade,
faça aquele instante
parecer eterno.
Mas o amor também conhece
a crueldade do tempo.
Ele sabe partir.
Sabe ferir.
Sabe deixar uma cadeira vazia,
um lado frio da cama,
uma música impossível de ouvir
sem lembrar de alguém.
E é nesse momento
que descobrimos
a verdadeira força de quem ama:
não é não sofrer.
É sofrer
e ainda assim não permitir
que a dor destrua
aquilo que havia de bonito em nós.
É enxugar o próprio amor
quando ele chora.
Recolher seus pedaços.
Guardá-los com cuidado.
E seguir.
Porque alguns amores
não permanecem em nossas mãos,
mas permanecem em nossa história.
E talvez seja esse
o verdadeiro significado de amar:
não possuir alguém,
mas permitir que sua existência
transforme a nossa.
Você me transformou.
Renovou meu caráter
quando eu já não acreditava
que pudesse mudar.
Trouxe paz
para lugares onde eu só conhecia guerra.
Fez nascer esperança
onde eu havia construído
muros de desilusão.
E me ensinou
que algumas pessoas
não chegam para ficar,
chegam para despertar.
Despertar sonhos.
Despertar sentimentos.
Despertar uma versão de nós
que estava escondida
atrás dos medos.
Hoje, quando olho para trás,
não sei se fomos eternidade
ou apenas um breve capítulo.
Talvez tenhamos sido
as duas coisas.
Porque existem encontros
que duram anos
e não deixam marcas.
E existem encontros
que duram apenas alguns instantes
e mudam para sempre
a maneira como enxergamos a vida.
Você foi um desses encontros.
E se algum dia
o céu perder suas estrelas,
se o sol se esconder
atrás de uma noite interminável,
se a vida apagar
as luzes que um dia
pareceram tão eternas,
ainda assim
haverá alguma coisa
que permanecerá acesa.
Não será o céu.
Não será o sol.
Serão as lembranças.
Aquelas que o tempo
não consegue apagar
porque foram escritas
não na memória,
mas na alma.
E talvez seja por isso
que ainda consigo enxergar você
mesmo quando fecho os olhos.
Porque algumas pessoas
não desaparecem quando partem.
Elas apenas deixam de estar
diante dos nossos olhos
e passam a existir
em algum lugar mais profundo,
onde o tempo não alcança,
onde a distância não importa,
onde o amor,
mesmo depois de tudo,
continua sendo
luz.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 085
Comentários ( 2)
"🥹😭😭"
"Obrigado!🥹🥹 "
