Você Me Desbloqueou
E me ensinou a viver sem me esconder.
Ele sempre foi o tipo de pessoa que pensava demais.
Antes de cada decisão, vinham mil possibilidades. Antes de cada palavra, um medo. Antes de cada passo, uma dúvida. Como se viver fosse um campo cheio de armadilhas invisíveis, esperando o momento certo para fazê-lo cair.
Ele sorria pouco, falava o necessário e sentia muito… mas quase nunca deixava transparecer.
Era seguro assim. Era silencioso assim. Era solitário assim.
Até que ela apareceu.
Não foi como nos filmes, com música alta ou algo grandioso.
Foi simples.
Começou com uma mensagem no celular.
Um diálogo despretensioso…
e uma pergunta que parecia pequena demais pra mudar qualquer coisa:
“E se…?”
E, de repente, um dia comum
já não era mais tão comum assim.
Ela não chegou tentando consertá-lo. Não tentou entender demais, nem forçar respostas. Apenas ficou.
E, de algum jeito, isso foi o suficiente.
No começo, ele estranhou. Como alguém podia permanecer sem exigir explicações? Sem pressionar? Sem ir embora diante dos seus silêncios?
Mas ela ficava.
E, aos poucos, algo dentro dele começou a ceder.
Ele percebeu que falava mais quando estava com ela. Que ria com mais facilidade. Que o tempo parecia menos pesado. Como se, pela primeira vez, não precisasse medir cada gesto, cada palavra, cada parte de si.
Ela não o mudava.
Ela o permitia.
E isso era novo.
Com o tempo, o medo começou a perder espaço. Não porque desapareceu por completo, mas porque já não comandava tudo.
Onde antes havia tensão, surgia calma. Onde havia dúvida, surgia vontade. Onde havia silêncio forçado, surgia presença.
Ele começou a fazer coisas sem pedir permissão ao próprio medo. Começou a existir sem pedir desculpas por ser quem era.
E, pela primeira vez, isso não parecia errado.
Parecia… certo.
Houve dias difíceis, claro. Dias em que ele quase voltou a ser quem era antes. Dias em que o passado insistia em puxá-lo de volta.
Mas, mesmo nesses dias, ela estava lá.
Não para salvá-lo.
Mas para lembrá-lo de quem ele estava se tornando.
E isso fazia toda a diferença.
Foi então que ele entendeu.
Ela não entrou na vida dele para preencher um vazio.
Ela entrou para abrir portas.
Portas que ele mesmo havia trancado há muito tempo.
E, sem perceber, ele já não era o mesmo.
Agora, ele andava com mais leveza. Falava com mais verdade. Sentia sem tanto medo.
Não porque o mundo havia mudado.
Mas porque, ao lado dela, ele finalmente aprendeu que não precisava se esconder de si mesmo.
E talvez o mais bonito de tudo…
Não era o fato de ela ter chegado.
Mas o fato de ter ficado.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 038
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