Só Percebi Quando Já Era Amor
Em todas as versões da realidade, eu ainda escolheria você.
O café já estava frio, mas nenhum dos dois parecia notar.
O silêncio entre eles não era desconfortável, não daquele tipo que implora por assunto ou obriga alguém a preencher o vazio com palavras apressadas. Era um silêncio cheio. Denso. Quase íntimo demais para ser quebrado.
Calebe observava Maya enquanto ela tentava, sem muito sucesso, equilibrar um sachê de açúcar na borda da xícara. O sol da tarde atravessava a janela do bistrô e pousava sobre os fios castanhos do cabelo dela, acendendo reflexos dourados e destacando a pequena sarda na ponta do nariz que ele conhecia tão bem.
Conhecia bem até demais.
Quatro anos.
Quatro anos dividindo madrugadas insones, términos desastrosos, mudanças de apartamento, porres vergonhosos e domingos preguiçosos assistindo documentários absurdamente específicos sobre o fundo do mar. Maya tinha se tornado o lugar onde a vida dele descansava depois do caos.
E, durante todo esse tempo, Calebe insistiu na mentira mais confortável que já contou para si mesmo:
“Ela é só minha melhor amiga.”
Até aquele instante.
Maya finalmente desistiu do sachê de açúcar e ergueu os olhos ao perceber que ele a encarava havia tempo demais. Sorriu de canto, divertida, arqueando levemente a sobrancelha num silencioso:
“O que foi?”
Então aconteceu.
Sem aviso. Sem música dramática. Sem fogos de artifício.
O mundo apenas perdeu o som.
O peito de Calebe sofreu um impacto seco, quase doloroso, como se alguma peça dentro dele tivesse finalmente se encaixado tarde demais. A verdade veio inteira de uma vez — embora estivesse caminhando em direção a ele há anos, silenciosa, paciente, escondida em pequenos detalhes que agora faziam sentido.
Nas risadas dela.
Nos áudios de madrugada.
Na forma como ele sempre procurava Maya primeiro para contar qualquer coisa boa.
Ou ruim.
Só percebi quando já era amor.
Não havia transição possível. Não era “acho que estou me apaixonando”.
Não.
Ele já amava Maya havia muito tempo. Só ainda não tinha encontrado coragem para chamar aquilo pelo nome certo.
— Calebe? — Maya franziu a testa, inclinando-se um pouco na cadeira. — Você tá bem? Parece que viu um fantasma.
Ele soltou uma risada curta pelo nariz.
— Talvez eu tenha visto.
A xícara entre suas mãos parecia a única coisa mantendo-o preso à realidade. Ele respirou fundo. Sabia que as próximas palavras poderiam mudar tudo entre eles — para melhor ou para sempre.
Mas esconder aquilo já parecia mais impossível do que confessar.
— Eu tava pensando numa coisa... — disse, a voz mais baixa. — Sobre teoria dos muitos mundos. Universos paralelos.
Maya riu imediatamente.
— Meu Deus. Você voltou a ler ficção científica às três da manhã, né?
— Eu tô falando sério.
E havia algo tão sincero no jeito que ele a olhou que o sorriso dela diminuiu aos poucos, dando lugar a uma atenção silenciosa.
Calebe se inclinou sobre a mesa.
— Se existirem infinitas versões da realidade... então existem infinitas versões de nós dois também. Em algum lugar, talvez sejamos completos estranhos. Em outro, talvez moremos na mesma cidade desde crianças. Talvez exista um universo em que a gente nunca tenha se encontrado.
Maya o observava sem interromper.
O bistrô parecia distante agora. Pequeno demais para conter aquele momento.
— E onde exatamente você quer chegar com isso? — ela perguntou, quase num sussurro.
Calebe estendeu a mão sobre a mesa, deixando os dedos a poucos centímetros dos dela.
Uma escolha.
Um abismo.
E coragem suficiente para atravessá-lo.
— Quero chegar ao fato de que não importa o universo... nem a versão da vida que colocassem diante de mim... eu escolheria você em todas elas.
Os olhos de Maya vacilaram.
A voz dele saiu ainda mais firme:
— Em milhares de vidas. Em milhares de mundos. Em todas as realidades possíveis... eu sempre encontraria um jeito de chegar até você. E escolheria você de novo. Sempre.
O silêncio voltou.
Mas agora era diferente.
Elétrico.
Maya baixou os olhos para a mão dele e depois ergueu o rosto devagar. Havia emoção demais presa naquele olhar — como se parte dela estivesse esperando por aquela confissão muito antes de ele perceber que precisava fazê-la.
Então ela sorriu.
Não o sorriso brincalhão de sempre.
Era um sorriso calmo. Quente. Quase inevitável.
Como quem finalmente chega em casa depois de uma viagem longa demais.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
E se aproximou só o suficiente para que Calebe sentisse sua respiração falhar outra vez.
— Que bom — ela sussurrou. — Porque eu atravessaria cada uma dessas vidas só para ser encontrada por você.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 047
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