Crônicas

Quando a Vida Volta

Um homem relembra o amor que marcou profundamente sua vida. Mesmo após a partida da mulher que despertou esse sentimento, ele segue vivendo com a saudade e a esperança silenciosa de reencontrá-la. Quando finalmente a vê novamente, percebe que, mais do que

15/03/2026 às 23:40 Edição № 004/ 2026 28 leituras
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Quando a Vida Volta

Existem pessoas que passam por nossa vida como um simples encontro de caminhos. Outras ficam um pouco mais, deixam algumas lembranças e seguem viagem.

Mas existem aquelas raras pessoas que, mesmo depois de partirem, continuam morando dentro de nós.

Foi assim com Helena.

Às vezes Gabriel tentava lembrar exatamente quando tudo começou. Em qual dia, em qual conversa, em qual momento aquele sentimento nasceu. Mas a memória falhava. Não havia um instante preciso.

Quando percebeu, já estava acontecendo.

Ele apenas sabia que, havia muito tempo, desejava estar perto dela. Tanto tempo que já não sabia explicar o porquê. Era como se aquela vontade tivesse surgido naturalmente, sem pedir permissão.

Helena tinha algo difícil de descrever. Não era apenas a beleza, embora ela fosse impossível de ignorar. Era o sorriso que parecia acalmar o mundo por alguns segundos. Era o cabelo que dançava com o vento como se soubesse que alguém estava olhando. Era o olhar — principalmente o olhar.

Gabriel sempre dizia para si mesmo que foi ali que tudo aconteceu.

Porque Helena tinha um jeito curioso de dominar alguém apenas com os olhos.

Mas a vida, como quase sempre faz, seguiu seu próprio roteiro.

Um dia ela partiu.

Não houve grandes despedidas. Não houve promessas dramáticas. Apenas o silêncio que fica quando alguém que fazia parte do nosso mundo simplesmente deixa de estar ali.

E então os dias começaram a mudar.

As manhãs não tinham mais o mesmo brilho. As conversas pareciam mais curtas. A rotina continuava acontecendo, mas algo estava fora do lugar.

Era como se a vida tivesse perdido uma pequena parte da sua cor.

Gabriel seguiu vivendo, cercado de pessoas, tarefas e compromissos. Mas em algum lugar dentro dele sempre existia aquela espera silenciosa — como quem deixa a porta entreaberta para algo que talvez um dia volte.

E então, quando ele menos esperava, aconteceu.

Foi em um encontro inesperado, simples, quase comum. Helena estava ali novamente.

Por um momento ele pensou que fosse apenas imaginação. Mas não era.

Eles conversaram. Riram. E, em algum instante que o tempo pareceu respeitar, ele finalmente pôde abraçá-la novamente.

Foi um abraço longo. Silencioso.

Parecia um sonho.

E talvez fosse.

Porque naquele instante Gabriel sentiu algo que não sentia há muito tempo: a vida.

Era como se o mundo tivesse voltado a respirar dentro dele.

Helena não voltou para ficar. A vida não trouxe isso de volta.

Mas ela trouxe algo que talvez fosse ainda mais importante.

Ela trouxe de volta aquilo que ele pensava ter perdido: a capacidade de sentir.

E foi então que Gabriel entendeu algo curioso sobre o amor.

Às vezes a vida não nos devolve as pessoas que desejamos.

Mas algumas pessoas têm o poder de nos devolver a própria vida.


E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 004

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