Quando a Vida te Der Alguém Especial
Quando a vida te der alguém especial, não conte os dias. Faça os dias contarem.
Miguel sempre acreditou em promessas eternas.
Ao mesmo tempo, nunca imaginou que poderia viver uma de verdade.
Já tinha visto pessoas jurarem amor para sempre e, algum tempo depois, seguirem caminhos diferentes. Por isso, aprendeu a não fazer perguntas que ninguém podia responder.
Quanto tempo dura um amor?
Um ano?
Uma década?
Uma vida inteira?
Ninguém sabia.
Então, quando Ester apareceu em sua vida, ele não procurava nada. Também não tinha expectativa alguma.
A vida seguia um caminho sem novidades. Os dias passavam e ele apenas os acompanhava. Não porque fosse sua escolha, mas porque era a única direção que conseguia enxergar.
Mas e se as coisas mudassem?
Talvez isso pudesse acontecer.
Tal como o vento empurra um barco para uma direção inesperada, algumas tempestades costumam mudar destinos.
Ester chegou assim.
Como uma tempestade.
E aquela tempestade, intensa e inesperada, acabou mudando não apenas o rumo do barco, mas também o dela própria.
Ela também não esperava.
E se esperasse?
Talvez não tivesse acontecido.
Ambos caminhavam pelos mesmos caminhos havia muito tempo, mas nunca haviam se olhado de verdade.
Quando seus olhares finalmente se cruzaram, perceberam algo diferente. Ainda assim, acostumados às decepções, não deram valor ao que sentiram. Preferiram seguir em frente.
Mas o acaso tem seus próprios planos.
Aos poucos, lembravam um do outro sem entender o motivo.
Até que uma oportunidade surgiu, sem planejamento, sem intenção e sem aviso.
E eles conversaram.
E se antes a vida parecia tê-los abandonado, agora passaram a cultivá-la.
Sem perceber, Miguel começou a esperar pelos momentos em que poderiam conversar.
Os cafés da manhã demorados.
Os almoços despreocupados.
As caminhadas sem destino.
As histórias contadas pela segunda vez, apenas porque ouvir a voz dela era agradável.
Ester tinha o costume de observar o nascer e o pôr do sol. Miguel achava graça daquilo, embora também gostasse.
— O que você procura lá em cima? — perguntou certa vez.
Ela sorriu.
— Nada. Eu só gosto de lembrar que alguns momentos não voltam. Então tento enxergá-los de verdade antes que acabem.
Aquela frase ficou guardada nele.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, Miguel percebeu que estava preocupado com a pergunta errada.
Enquanto pensava no futuro, o presente acontecia.
Enquanto tentava descobrir quanto tempo tudo duraria, deixava de viver aquilo que já tinha.
Naquela manhã, sentados em um banco de praça iluminado pela luz dourada do nascer do sol, ele segurou a mão dela e disse:
— Eu achei que já tinha amado alguém antes. Mas você me mostrou que nunca havia sentido algo assim.
— Assim como? — perguntou ela.
Miguel sorriu.
— Feliz. Você me faz feliz.
Ester abaixou os olhos por um instante.
— Sério? As pessoas sempre me disseram que eu era um problema.
Miguel apertou sua mão.
— Então elas nunca te enxergaram de verdade. Você é uma pessoa maravilhosa. Eu me sinto feliz ao seu lado. Você é minha melhor companhia. E, mesmo com seus defeitos, consigo enxergar muito mais beleza do que qualquer imperfeição.
Ester apertou sua mão de volta.
Não havia promessas impossíveis.
Não havia garantias.
Apenas duas pessoas escolhendo estar ali.
Naquele instante.
Naquele lugar.
Compartilhando um pedaço da vida.
E Miguel compreendeu algo que levaria consigo para sempre:
Quando a vida te der alguém especial, não pergunte quanto tempo vai durar.
Aproveite cada conversa.
Cada abraço.
Cada sorriso.
Cada silêncio confortável.
Porque a felicidade raramente está escondida no futuro.
Ela costuma morar nos pequenos momentos que vivemos hoje.
E alguns deles valem uma eternidade inteira.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 058
Comentários ( 0)
Seja o primeiro a comentar.
