O Silêncio que Ficou
Quando estar sozinho não significa estar vazio.
Há noites em que a solidão não chega.
Ela simplesmente permanece.
Talvez sempre tenha estado ali, sentada em algum canto da casa, esperando que o barulho do dia terminasse para finalmente poder conversar comigo.
Naquela noite, porém, não havia nada que pudesse distraí-la.
O relógio avançava devagar. A cidade, do lado de fora, continuava sua vida como se nada estivesse acontecendo. Algumas luzes permaneciam acesas nas janelas dos prédios, outras se apagavam lentamente. Pessoas provavelmente dormiam, amavam, brigavam, sonhavam. Algumas talvez estivessem chorando sem que ninguém soubesse.
E eu estava ali.
Olhando para o nada.
Ou talvez olhando para dentro de mim.
Havia um sorriso discreto em meu rosto. Um daqueles sorrisos que não nascem da felicidade, mas do esforço de parecer bem. Um sorriso que engana os outros e, às vezes, até a nós mesmos.
Minha boca sorria.
Meus olhos, não.
Meus olhos já haviam chorado por amor.
Agora choravam pela solidão.
Existe uma diferença entre essas duas dores.
A primeira nasce quando alguém parte.
A segunda nasce quando percebemos que, mesmo depois de tantas partidas, continuamos esperando alguém chegar.
O silêncio sempre foi meu lugar preferido para esconder aquilo que não sabia explicar.
Nele, ninguém me perguntava por que eu estava triste.
Ninguém exigia uma explicação para meus olhos cansados.
Ninguém precisava saber quantas vezes, durante a madrugada, eu reconstruía dentro da cabeça conversas que nunca aconteceram ou imaginava futuros que talvez jamais existissem.
No silêncio eu não precisava ser forte.
Eu podia simplesmente ser.
E talvez essa seja uma das maiores descobertas que fazemos ao longo da vida: passamos tanto tempo tentando mostrar quem somos aos outros que esquecemos de descobrir quem somos para nós mesmos.
Eu mesmo não sei completamente quem sou.
Sou mais do que consigo compreender.
Carrego dentro de mim pensamentos que nunca pronunciei, sentimentos que nunca consegui nomear e lembranças que, mesmo depois de tantos anos, ainda sabem exatamente onde tocar para doer.
Então me perguntam:
Por que você chora?
E eu quase sorrio.
Como explicar uma tempestade para quem só vê o céu?
Como explicar a alguém que pareço caminhar em linha reta que, por dentro, existem caminhos que já percorri milhares de vezes e dos quais ainda não consegui sair?
Talvez seja por isso que amar seja tão perigoso.
Porque amar é entregar ao outro uma parte de nós que já não conseguimos recuperar.
É acordar e procurar alguém ao nosso lado.
É desejar contar alguma coisa e lembrar que aquela pessoa não está ali.
É encontrar uma música e imediatamente pensar nela.
É olhar para o pôr do sol e desejar que alguém pudesse enxergá-lo exatamente como você enxerga.
É descobrir que felicidade também pode doer quando sabemos que ela pode desaparecer.
Eu já me perguntei o que seria amar sem ter certeza da felicidade.
Talvez seja justamente isso que chamamos de amor.
Uma espécie de coragem diante da incerteza.
Amar mesmo sem garantias.
Amar sem saber se amanhã haverá abraço.
Sem saber se o caminho continuará sendo o mesmo.
Sem saber se dois corações conseguirão permanecer no mesmo lugar depois que a vida começar a empurrá-los para direções diferentes.
E foi quando conheci o amor que compreendi a verdadeira dimensão da solidão.
Antes, eu pensava que solidão era não ter ninguém.
Depois descobri que é possível sentir-se sozinho justamente quando finalmente encontramos alguém que gostaríamos de ter para sempre.
Porque depois que conhecemos uma presença que nos completa, a ausência ganha outro tamanho.
A solidão deixa de ser apenas vazio.
Ela passa a ter memória.
E talvez seja por isso que ela doa tanto.
Ela se alimenta daquilo que já tivemos.
Naquela noite, pensei em você.
Não como quem pensa em uma lembrança, mas como quem tenta trazer alguém de volta através do pensamento.
Imaginei seu rosto.
Sua presença.
O encontro dos nossos olhos.
Imaginei meu corpo caminhando em sua direção e, por alguns segundos, permiti que minha mente construísse aquilo que a realidade não podia me oferecer.
Era quase possível sentir você.
Quase.
E talvez o "quase" seja uma das palavras mais cruéis que existem.
Porque o quase nos permite sonhar sem nos deixar possuir o sonho.
Quase fomos.
Quase ficamos.
Quase tivemos.
Quase fomos felizes.
E, ainda assim, aquele quase pode ocupar uma vida inteira.
Fechei os olhos.
Por um instante, o mundo desapareceu.
Não havia passado.
Não havia futuro.
Não havia medo.
Só havia a possibilidade de nós dois.
E naquele pequeno espaço criado pela imaginação, compreendi algo que talvez tivesse passado anos tentando entender:
o amor não está necessariamente em ter alguém.
Às vezes, ele está na capacidade de sentir.
De desejar.
De cuidar.
De permitir que outra pessoa atravesse as paredes que construímos ao redor de nossa alma.
Talvez amar seja isso: abrir a porta sabendo que alguém pode entrar e, também, sabendo que pode partir.
Eu havia passado tanto tempo tentando proteger meu coração que quase esqueci que um coração protegido demais também deixa de viver.
Foi então que percebi que meus olhos, aqueles que durante tanto tempo esconderam segredos, pareciam me denunciar quando estavam diante de você.
Perto de você, eu não conseguia esconder completamente quem era.
Minha alma parecia respirar de outra maneira.
E talvez fosse isso que me assustasse.
Porque algumas pessoas não chegam para ocupar um espaço em nossa vida.
Chegam para revelar espaços que nem sabíamos que existiam.
Você revelou alguns deles em mim.
E onde havia apenas silêncio, nasceu uma voz.
Onde havia medo, nasceu vontade.
Onde havia solidão, nasceu esperança.
Mas a vida não costuma respeitar aquilo que desejamos.
Às vezes nos perdemos.
Às vezes nos encontramos.
Às vezes encontramos alguém exatamente quando estamos preparados para amar, mas tarde demais para permanecer.
E talvez essa seja uma das maiores injustiças da existência: descobrir o que queremos quando já não sabemos se podemos tê-lo.
Ainda assim, aprendi.
Aprendi que não devemos passar a vida inteira presos ao que passou.
O passado tem sua importância, mas não pode ser nossa morada.
O que passou deve ser lembrado, não habitado.
Por isso, se algum dia você olhar para o céu no fim da tarde, pare por alguns segundos.
Observe o pôr do sol.
Deixe o vento tocar seu rosto.
Não tente explicar.
Apenas sinta.
Talvez você finalmente compreenda algumas coisas que palavras jamais conseguirão dizer.
Abra o coração.
Não porque o mundo seja sempre gentil, mas porque viver com o coração fechado também é uma forma silenciosa de morrer.
Eu ainda estou aprendendo.
Dia após dia, aprendo a me amar.
E, estranhamente, quanto mais aprendo a me amar, mais descubro o quanto ainda sou capaz de amar você.
Talvez não exista contradição nisso.
Talvez amar alguém não precise significar abandonar a si mesmo.
Talvez o verdadeiro amor seja justamente aquele que nos ensina a voltar para dentro de nós.
E quando tudo parece perdido, fecho novamente os olhos.
Imagino você.
Imagino nossos passos se aproximando.
Imagino nossas mãos se encontrando.
Imagino aquele instante em que dois mundos deixam de ser dois e, por alguns segundos, tornam-se apenas um.
Então respiro.
E lembro que sonhos também são lugares.
Podemos visitá-los.
Podemos permanecer neles por alguns minutos.
Mas, inevitavelmente, precisamos voltar.
Abro os olhos.
O quarto continua escuro.
A janela continua diante de mim.
A cidade continua distante.
O relógio continua avançando.
E não há ninguém ao meu lado.
Nesse instante, percebo que algumas verdades não precisam ser aceitas de uma só vez.
Algumas precisam ser sentidas até perderem a força.
Talvez amanhã eu acorde diferente.
Talvez o futuro traga aquilo que hoje parece impossível.
Talvez nossos caminhos ainda se encontrem.
Talvez não.
A vida não me prometeu respostas.
E talvez eu tenha passado tempo demais tentando encontrá-las.
Hoje, prefiro aprender a viver com algumas perguntas.
Porque descobri que nem toda incerteza precisa ser vencida.
Algumas apenas precisam ser acompanhadas.
Como o silêncio.
Como a noite.
Como a saudade.
Como o amor.
E como essa solidão que, durante tanto tempo, pensei ser minha inimiga.
Talvez ela nunca tenha querido me destruir.
Talvez tenha apenas me mostrado aquilo que eu não queria enxergar.
Que eu ainda sinto.
Que eu ainda sonho.
Que eu ainda amo.
E que, apesar de todas as vezes em que pensei estar vazio, ainda existe alguma coisa dentro de mim capaz de florescer.
Talvez seja isso que resta da minha pobre alma.
Não o silêncio.
Não a solidão.
Mas a coragem de continuar sentindo.
Fecho os olhos uma última vez.
Por um instante, imagino você ao meu lado.
Sorrio.
Dessa vez, o sorriso parece verdadeiro.
Então abro os olhos.
E volto para a realidade.
O mundo continua às escuras.
O quarto permanece em silêncio.
E eu continuo sozinho.
Mas agora sei que estar sozinho não significa necessariamente estar vazio.
Porque dentro de mim ainda existe você.
Existe o amor.
Existe a esperança.
E existe a certeza de que, enquanto eu ainda for capaz de sentir, minha história não terminou.
Talvez amanhã o silêncio diga outra coisa.
Talvez amanhã a solidão vá embora.
Mas hoje...
Hoje ela permanece.
Sentada ao meu lado.
Em silêncio.
E, pela primeira vez, eu não tenho medo dela.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 081
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