O Que Não Pode Ser, Mas É
Há amores que vivem no silêncio e ainda assim, nunca deixam de existir.
João não sabe o que fazer.
Se angustia tentando desviar o pensamento, como se fugir fosse mais fácil do que entender.
Espera por qualquer coisa — um sinal, um ruído, um acaso — que o leve para longe daquilo que insiste em permanecer.
Mas ela permanece.
Não aparece com frequência, mas vive intensamente dentro dele.
Talvez não venha porque não pode.
Ou talvez porque, se vier, não vá conseguir ir embora depois.
E isso assusta.
João teme não conseguir esquecê-la.
E sofre ao perceber o quanto tudo isso é diferente de tudo o que um dia imaginou viver.
João chora.
Ela também.
João ora.
Ela também.
E, no silêncio das próprias dúvidas, ele se pergunta:
se o proibido é proibido… por que o amor não aprende a ser?
Ela pensa nele.
Mesmo quando tenta não pensar.
Mesmo quando finge que não sente.
Reluta em dizer “sim”,
porque sabe que não pode.
Mas também não consegue dizer “não”.
Porque, no fundo, já disse, só nunca em voz alta.
Quando estavam juntos, havia algo que não cabia no tempo.
Não era comum, não era leve… mas era inteiro.
Como se fossem todas as histórias de amor que já existiram —
e, ao mesmo tempo, nenhuma.
E então, em um desses encontros roubados do mundo,
entre um silêncio e outro, eles disseram pouco…
mas disseram tudo:
— “Isso não pode continuar…” — ela sussurrou, sem coragem de soltar a mão dele.
— “Eu sei…” — ele respondeu, sem fazer esforço algum para soltá-la.
— “Mas eu não consigo ir embora.”
— “Nem eu.”
E ficaram.
Por mais alguns instantes que não deveriam existir.
Hoje, o que resta é a ausência.
Mas não uma ausência vazia —
uma ausência cheia de tudo o que ainda vive.
A dor de não tê-la é imensa.
A dor de não o ter… também.
E, ainda assim, eles seguem.
Cada um em seu lugar.
Cada um em sua vida.
Carregando um ao outro onde ninguém vê.
Porque a saudade não é só lembrança.
É presença sem permissão.
E talvez o mais difícil de aceitar
seja que existem amores que não nasceram para ser vividos por inteiro…
mas que, mesmo assim,
nunca deixam de ser.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 015
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