Crônicas

O Livro Esquecido no Parque

Entre cafés, silêncios e um beijo inesperado, Roberto descobriu que o amor às vezes chega exatamente onde a solidão aprendeu a morar.

14/05/2026 às 23:19 Edição № 044/ 2026 26 leituras
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O Livro Esquecido no Parque

No parque, Roberto passava sempre. Na correria do dia a dia ou nos seus dias de folga, sempre que podia ou se lembrava, estava lá.

Estendia seu lençol na grama e ajeitava as coisas, como de costume: um lanche, uma garrafa de café, água e alguns aperitivos. Usando um travesseiro, se deitava um pouco para ver os pássaros voarem.

Tentava adivinhar o que as nuvens desenhavam no céu, e sua mente riscava ali diversas possibilidades.

Brevemente, cumprimentava as pessoas que cruzavam seu olhar: bom dia, boa tarde ou boa noite. Quando se estendia um pouquinho mais, a conversa era limitada ao clima, ao parque e, às vezes, sobre alguma notícia popular.

Certa vez, ao ir embora, levantou-se e se desequilibrou. Ficou com vergonha e foi embora.

Só percebeu quando chegou em casa: havia esquecido seu velho livro de capa marrom no parque.

Suspirou irritado consigo mesmo. Não pelo valor do livro, mas porque carregava anotações espalhadas entre as páginas. Frases incompletas, pensamentos soltos, sonhos que nunca teve coragem de dizer em voz alta.

No dia seguinte, voltou cedo, esperando encontrá-lo molhado pela grama ou já nas mãos de outra pessoa.

Mas o livro estava lá.

Ou melhor… alguém estava com ele.

Sentada sobre o próprio lençol, uma mulher folheava as páginas com atenção quase íntima. Tinha os cabelos bagunçados pelo vento e um olhar inquieto, como quem parecia pensar rápido demais para o mundo acompanhar.

Quando Roberto se aproximou, ela ergueu os olhos.

— Então o poeta distraído voltou. — disse ela, segurando o livro contra o peito.

Roberto travou por um instante.

— Eu… esse livro é meu.

— Eu sei. Seu nome está escrito aqui atrás. — ela virou a capa. — Roberto.

— Você leu?

— Só as partes que gritavam por socorro.

Ele soltou uma risada curta, nervosa.

— Ótimo. Agora uma desconhecida sabe todos os meus traumas.

— Relaxa. Eu também sou cheia deles.

Ela estendeu o livro para ele, mas não soltou de imediato.

— Você vem aqui sempre sozinho?

— Quase sempre.

— Por escolha?

Roberto pensou antes de responder.

— Acho que depois de um tempo a solidão vira costume.

Ela inclinou a cabeça, observando-o como se tentasse desmontá-lo peça por peça.

— Isso é triste.

— Nem sempre.

— É sim. Você só aprendeu a decorar a tristeza com café e céu bonito.

A sinceridade dela o atingiu de um jeito estranho. Não parecia crueldade. Parecia alguém abrindo uma janela num quarto fechado há tempo demais.

— E você? — ele perguntou. — Vem aqui fazer o quê?

— Fugir.

— De quê?

— Das pessoas que gostam pouco e prometem muito.

O silêncio veio leve entre os dois. Não desconfortável. Apenas verdadeiro.

Ela sorriu primeiro.

— Paula.

— Roberto.

— Eu sei. O poeta distraído.

Os dias passaram a ter encontro marcado sem que combinassem nada.

Paula aparecia intensa, falando demais, rindo alto, mudando de assunto como quem mudava de estação no rádio. Roberto ouvia mais do que falava, mas pela primeira vez sentia vontade de permanecer.

Até que numa tarde fria, enquanto o parque esvaziava lentamente, Paula se aproximou dele em silêncio.

— Posso te contar uma coisa? — perguntou.

— Claro.

— Você olha pro mundo como quem espera que ele vá embora a qualquer momento.

Roberto abaixou os olhos.

— Talvez porque quase tudo vai.

Paula se aproximou ainda mais.

— Então guarda isso pelo máximo de tempo que conseguir.

— O quê?

Ela segurou o rosto dele com delicadeza inesperada e o beijou.

Não foi um beijo apressado.

Foi daqueles que parecem interromper o barulho inteiro do mundo por alguns segundos.

Quando se afastou, Roberto ainda tentava entender o que tinha acabado de acontecer.

Paula sorriu de canto.

— Viu? Às vezes a vida esquece coisas boas no caminho também.

E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Roberto não ficou olhando as nuvens tentando imaginar possibilidades.

Ele finalmente estava vivendo uma.

 

E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 044

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