Crônicas

O essencial não faz barulho, mas faz morada

O amor verdadeiro não chega com pressa, ele cria raízes em silêncio.

09/04/2026 às 23:33 Edição № 025/ 2026 75 leituras
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O essencial não faz barulho, mas faz morada

Em uma tarde de sol, Roberto, já cansado de tantos afazeres no seu dia a dia, fez para si mesmo um café. Forte. Daqueles que invadem o ambiente antes mesmo do primeiro gole, como se quisessem lembrar que ainda existe energia em algum lugar.

Ele morava só. Um apartamento simples, poucas plantas, algumas fotografias sobre a estante, memórias silenciosas de um tempo em que a casa parecia mais cheia. Perto dali, repousava o objeto que mais carregava significado: um violão antigo, herança de seu pai.

Roberto não sabia tocar.

Na verdade, mal sabia segurar o instrumento. Das seis cordas, restavam apenas duas — como se o tempo também tivesse levado parte da música embora. Ainda assim, algo nele insistia: uma vontade estranha, quase teimosa, de fazer aquelas duas cordas dizerem alguma coisa.

E ele tentou.

No erro e na curiosidade, começou a pressionar notas, repetir sons, testar possibilidades. Sem perceber, criou pequenos fragmentos de algo que parecia… música. Simples, imperfeita, mas viva.

Ainda assim, faltava algo.

Faltava sempre algo.

Com essa sensação inquieta, saiu de casa decidido a aprender de verdade… não só música, mas talvez, quem sabe, também encontrar novas conexões.

Caminhou muito. Viu escolas, anúncios, placas. Nada o tocava de verdade. Até que passou por uma loja de instrumentos. Entrou, comprou cordas novas, talvez achando que, se tivesse todas as possibilidades, encontraria sentido.

Mas não encontrou.

Cansado, voltou para casa. No caminho, passou por uma casa antiga. Na frente, algumas flores. Ao lado da porta, um vaso amarelo. Nele, apenas uma única flor.

Sozinha.

Aquilo o chamou atenção. Mas ele seguiu.

Em casa, segurou o violão como quem segura uma esperança frágil.

— Quem sabe amanhã…

Decidiu trocar as cordas. Leu o manual com cuidado, quase com medo de errar. No meio das embalagens, um papel caiu. Um anúncio simples, quase esquecido:

Aulas de música — aqui, o som começa de dentro.

Ele não lembrava de ter visto aquilo antes.

Na manhã seguinte, sábado de sol, pegou o violão e seguiu o endereço.

Quando chegou, parou.

Era a casa.

A mesma casa antiga. As mesmas flores. O mesmo vaso amarelo… com a mesma única flor.

Mas agora, a porta estava aberta.

E ele entrou.

Lá dentro, o ambiente era simples, acolhedor. Cheirava a madeira e calma. E então ele a viu.

Letícia.

Ela afinava um violão perto da janela, como se já soubesse que ele chegaria. Levantou o olhar, sorriu… um sorriso leve, daqueles que não invadem, apenas convidam.

— Veio aprender música? — ela perguntou.

Roberto hesitou.

— Acho que… vim aprender o que está faltando.

Ela sorriu de novo. Como se entendesse.

Os dias passaram, e as aulas viraram encontros. Os encontros viraram conversas. E as conversas, pouco a pouco, começaram a preencher os silêncios que Roberto carregava.

Ele aprendeu acordes.

Mas mais que isso, aprendeu pausas.

Aprendeu que nem toda música está no som, algumas estão na presença.

Letícia não ensinava apenas técnica. Ela ensinava escuta. Sensibilidade. Presença.

E, sem perceber, Roberto já não tocava sozinho.

Certo dia, ao final de uma aula, ele olhou para o vaso amarelo do lado de fora.

Ainda havia uma flor.

Mas, agora, ao lado dela, havia outra.

— Você plantou? — ele perguntou.

Letícia se aproximou.

— Não. Algumas coisas só precisam de espaço… e tempo.

Roberto ficou em silêncio. Pela primeira vez, não porque faltavam palavras… mas porque tudo já estava dito.

Ele entendeu.

Nem tudo chega fazendo barulho.
Nem tudo precisa ser forçado.
Algumas coisas… apenas encontram seu lugar.

E ali, naquele vaso amarelo, duas flores cresciam lado a lado.

Diferentes, mas em sintonia.

Como duas histórias que, sem perceber, aprenderam a florescer juntas.

Porque o essencial…
não faz barulho,
mas faz morada.

# Reflexão do autor

A vida raramente grita quando algo importante está acontecendo. Na maioria das vezes, ela sussurra — e só percebe quem desacelera o suficiente para escutar.

Quantas vezes insistimos em caminhos que não nos tocam? Quantas oportunidades deixamos passar por julgamentos rápidos ou por não parecerem grandiosas o bastante?

Nem tudo que é valioso chega pronto ou evidente. Às vezes, vem como uma casa antiga, um anúncio esquecido, ou uma flor solitária em um vaso.

O que é verdadeiro não precisa chamar atenção.
Mas, quando encontra espaço… permanece.

E talvez seja isso que mais importa:
não aquilo que impressiona,
mas aquilo que fica.


E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 025

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