Crônicas

O Encontro com o Acaso

E nas surpresas do inesperado que encontramos novas direções.

23/03/2026 às 18:33 Edição № 010/ 2026 79 leituras
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O Encontro com o Acaso

É curioso como o acaso chega.

Ele não avisa, não manda mensagem, não combina horário. Simplesmente acontece — no meio de um dia comum, numa rua qualquer, em um instante que parecia não ter nada de especial.

Lucas percebeu isso parado em um cruzamento.

Era uma rua vazia, daquelas que parecem esquecidas pelo movimento da cidade. Não vinha ninguém. Nenhum carro, nenhum barulho. Ele começou a atravessar com a certeza tranquila de que nada iria acontecer.

E então, exatamente naquele momento, um carro surgiu e interrompeu sua passagem.

Lucas parou, deu um passo para trás e ficou olhando. Não pelo susto, mas pela coincidência.

Qual era a chance daquilo acontecer exatamente naquele segundo?

Era como andar quilômetros de bicicleta e passar justamente por cima de um único prego perdido no asfalto. Ou caminhar distraído e, no exato instante em que se está sob uma árvore, uma folha cair sobre você.

Pequenas coisas.

Mas que parecem carregadas de um significado estranho.

O acaso é assim.

Ele pode ser explicado — probabilidades, estatísticas, possibilidades. Tudo faz sentido no papel. Mas, quando acontece, parece escapar de qualquer lógica.

Porque o acaso não é sentido com números.

É sentido no momento.

Lucas continuou andando, mas algo tinha mudado. Não no caminho, mas no jeito de olhar para ele.

Começou a perceber quantas coisas na vida dele tinham sido assim. Quantos encontros, quantas oportunidades, quantas histórias começaram por algo que não estava planejado.

Uma conversa inesperada.

Um lugar novo.

Uma decisão tomada sem certeza.

E então veio um pensamento simples, quase incômodo:

Talvez o acaso não aconteça apenas.

Talvez a gente também provoque o acaso.

Porque, no fundo, ele percebeu uma coisa óbvia — mas que quase ninguém presta atenção:

O acaso raramente acontece dentro da rotina.

Ele nasce quando saímos do caminho conhecido. Quando tentamos algo novo. Quando aceitamos o desconforto de não saber exatamente o que vai acontecer.

Ficar no mesmo lugar todos os dias pode até trazer segurança.

Mas dificilmente traz surpresa.

E sem surpresa… a vida começa a parecer repetida.

Lucas seguiu andando, agora mais atento. Não ao que estava planejado, mas ao que poderia surgir.

Talvez viver não fosse apenas organizar o que já se conhece.

Talvez fosse também abrir espaço para o inesperado.

Porque, no fim das contas, o acaso não é apenas aquilo que acontece com a gente.

É aquilo que só acontece

quando a gente se permite sair do lugar.

E, talvez, seja exatamente aí

que a vida começa a mudar.


E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 010

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