Crônicas

O Acaso que Ficou

Algumas pessoas não estão procurando ninguém. Vivem suas rotinas, organizam seus dias, seguem seus caminhos sem esperar por mudança alguma. Até que, sem aviso, algo acontece. E tudo o que parecia completo… revela que nunca esteve inteiro.

25/03/2026 às 17:01 Edição № 011/ 2026 58 leituras
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O Acaso que Ficou

João andava só. Logo ao acordar, fazia o que todos faziam: desligava o despertador e olhava as mensagens no celular. Se trocava e se preparava para trabalhar. Ao passar o café, logo pensava no que tinha que fazer no dia e no que havia deixado de fazer no dia anterior.

Tomava seu café apressado — queimava-se.

Comendo, se apressava para sair de casa, sem se esquecer de apagar as luzes e tirar tudo que estava ligado na tomada.

No ônibus, o caminho era monótono. Ele observava as pessoas aos montes, com os rostos iluminados pela luz fria das telinhas. Do lado de fora, gente correndo, pedindo dinheiro, esperando uma vaga para estacionar. Enfim, sem sair do lugar, ele pesava sobre si mesmo:

— Minha vida é um caos.

No dia a dia, a rotina era a mesma, anos a fio, sem qualquer mudança significativa. A solitude da alma parecia sustentar um tempo infinito de silêncio — não do tipo confortável, mas daquele que não diz nada.

Um dia, ao descer pela mesma rua e percorrer o mesmo caminho, nada que significasse algo importante aconteceu. Apenas uma galha caída, atravessada no caminho.

Ele contornou. Atravessou a rua.

Sem observar direito, esbarrou em algumas pessoas e continuou o percurso. Sem pedir desculpas, sem olhar para trás — apenas seguiu.

Foi então que viu a agenda caída no chão.

Pegou.

Por um instante, pensou em ignorar. Deixar ali, como tantas outras coisas que já havia deixado passar na vida. Mas não deixou. Folheou rapidamente. Havia nomes, compromissos, pequenas anotações que pareciam mais desabafos do que lembretes.

Sem pensar muito, decidiu deixá-la na recepção do primeiro comércio que encontrasse.

Mas antes, viu um número rabiscado na contracapa.

Ligou.

— Alô?

Do outro lado, uma voz hesitante.

— Eu... acho que encontrei sua agenda.

Silêncio.

Não um silêncio vazio — um silêncio carregado de algo que ele não soube explicar.

— Onde você está?

Marcaram de se encontrar.

E, pela primeira vez em muito tempo, João desviou do caminho habitual.

Ela também não esperava nada. Vivia como quem cumpre um roteiro já escrito — dias organizados, sentimentos guardados, expectativas reduzidas ao mínimo necessário para não se decepcionar.

Quando se viram, não houve nada extraordinário.

Nenhuma música tocando.
Nenhum vento dramático.
Nenhum sinal evidente de que aquilo mudaria algo.

Mas mudou.

Conversaram pouco. O suficiente.

Ela agradeceu. Ele disse “por nada”.

Mas, naquele encontro breve, algo silencioso aconteceu — como duas peças que não sabiam que estavam faltando, mas que, ao se encontrarem, simplesmente encaixaram.

João voltou para casa pelo mesmo caminho.

Mas já não era o mesmo.

Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, demorou a dormir. Não por ansiedade, nem por preocupação — mas porque havia algo diferente ocupando seus pensamentos. Algo leve. Algo que não exigia explicação.

Do outro lado da cidade, ela também não conseguiu dormir direito.

A agenda estava de volta, organizada como sempre. Mas havia algo fora do lugar — um detalhe que não cabia nas páginas alinhadas: o acaso.

No dia seguinte, João acordou como sempre. Desligou o despertador, olhou o celular, passou o café.

Dessa vez, não queimou a boca.

E, sem perceber, sorriu.

Saiu de casa alguns minutos mais cedo.

Sem motivo.

Ou com todos eles.

Ao descer pela mesma rua, a galha já não estava mais lá. O caminho estava livre. Ainda assim, ele atravessou a rua.

Não por necessidade.

Por vontade.

E então viu.

Ela vinha na direção oposta.

Os passos diminuíram, como se o tempo, por respeito, tivesse decidido andar mais devagar. Não houve surpresa exagerada, nem espanto — apenas um reconhecimento silencioso, como se, de algum modo, aquilo já estivesse escrito antes mesmo de acontecer.

— Oi... — ela disse, com um sorriso que não precisava de motivo.

— Oi... — ele respondeu, sem esconder o próprio.

Dessa vez, não havia agenda para devolver.

Nem pressa para ir embora.

Conversaram.

E, entre uma frase e outra, o que antes era acaso começou a se tornar escolha.

Os dias seguintes já não foram iguais.

Os caminhos começaram a coincidir com mais frequência do que a lógica permitiria. As conversas se alongaram. Os silêncios passaram a ser confortáveis. E, sem perceberem exatamente quando, deixaram de andar sozinhos.

João já não atravessava a rua para desviar.

Atravessava para encontrar.

Ela já não organizava apenas compromissos.

Começou a criar memórias.

E, no meio de uma rotina que antes parecia imóvel, nasceu algo que não pedia pressa, nem explicação — apenas presença.

Porque, às vezes, duas pessoas não estão se procurando.

Mas estão, o tempo todo, caminhando uma em direção à outra.

 

E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 011

Comentários ( 2)

Cida Anjos 25/03/2026 20:11

"Leveza e sensibilidade, reflexão sobre o que é pra ser nosso tempo nos trás."

Autor 07/04/2026 12:36

"Obrigado Cida! Que bom que gostou ? Concordo, viu? Já aproveita e entra no meu canal no WhatsApp pra acompanhar todas as novidades: https://whatsapp.com/channel/0029Vb8JmVUJpe8aASpleY1b"

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