Crônicas

Entre Partidas e Chegadas

Eles acreditavam no amor. Depois, deixaram de acreditar. E foi aí que algo inesperado aconteceu.

17/04/2026 às 18:30 Edição № 031/ 2026 101 leituras
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Entre Partidas e Chegadas

Ele sempre acreditou que o amor viria pronto.

Como um voo já anunciado no painel, com horário, destino e portão definidos. Bastaria chegar, embarcar e viver aquilo que sempre imaginou.

Mas a vida nunca confirmou esse embarque.

Cresceu entre silêncios. Não aqueles confortáveis, mas os que pesam. Aprendeu cedo a não esperar muito das pessoas. Tentou amar algumas vezes, é verdade, mas sempre com a sensação de estar atuando num papel que não era dele. Como se estivesse assistindo à própria vida de fora.

Então parou de procurar.

Não por desistência dramática. Foi mais um cansaço quieto.

Ela, por outro lado, sempre acreditou demais.

Via amor em tudo. Nas músicas, nas conversas curtas, nos olhares que talvez nem fossem para ela. Criava histórias inteiras a partir de quase nada, e por um tempo isso a fazia feliz.

Até não fazer mais.

Porque expectativa demais cobra um preço alto.

As decepções vieram como maré, uma atrás da outra, levando embora a leveza que ela tinha. Aos poucos, foi aprendendo a reduzir, a filtrar, a não se entregar tão rápido.

Até que também parou de procurar.

Não por falta de amor, mas por excesso dele mal colocado.

Ele começou a olhar o mundo com menos dureza.

Ela começou a olhar o mundo com menos fantasia.

E, sem perceber, os dois chegaram ao mesmo lugar.

Um ponto de equilíbrio onde o amor já não era uma busca desesperada, nem uma ilusão constante.

Era só uma possibilidade.

O aeroporto estava cheio naquele dia.

Gente indo, gente voltando, despedidas apressadas, reencontros demorados. Um lugar onde tudo acontece e nada fica.

Ele estava ali por um motivo simples: partir.

Ela também.

Sentaram-se próximos, separados por algumas cadeiras e histórias que não conheciam.

Nenhum dos dois procurava por ninguém.

E talvez por isso tenha acontecido.

O olhar veio primeiro.

Sem aviso, sem construção, sem esforço.

Aqueles segundos que parecem longos demais para serem ignorados e curtos demais para serem explicados.

Ele não desviou.

Ela também não.

Não houve sorriso ensaiado, nem tentativa de aproximação. Nenhuma palavra foi dita.

Mas havia algo ali. Não perfeito, não idealizado.

Real.

Como se, pela primeira vez, nenhum dos dois estivesse tentando transformar o outro em algo que não era.

Chamaram o voo dele.

Pouco depois, o dela.

Levantaram quase ao mesmo tempo.

Ainda se olharam uma última vez, não como quem perde algo, mas como quem reconhece.

E segue.

Porque, às vezes, o amor não começa com promessas.

Começa com silêncio.

E com duas pessoas que finalmente pararam de procurar, justamente quando estavam prontas para encontrar.

Sentaram-se lado a lado.

E, sem promessas, algo começou.


E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 031

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