Entre o Tempo e o Silêncio
Um amor que nasceu entre dois corações, mas que a vida não permitiu permanecer.
Na cidade cheia de vozes, passos e encontros apressados, vivia Gabriel.
Todos os dias ele caminhava entre centenas de pessoas: no ônibus lotado, nos corredores do trabalho, nas calçadas cheias do centro. Havia risos, conversas, cumprimentos rápidos e até abraços ocasionais.
Mas, ainda assim, Gabriel carregava uma estranha companhia: a solidão.
Não era falta de gente ao redor. Era outra coisa. Era a sensação de que ninguém realmente caminhava no mesmo ritmo que ele.
Foi numa tarde comum, dessas que passam sem pedir licença, que ele conheceu Clara.
Ela não chegou fazendo barulho. Não houve grandes gestos nem palavras memoráveis naquele primeiro encontro. Apenas um olhar breve, uma conversa simples e um sorriso que parecia entender coisas que nunca tinham sido ditas.
Com o tempo, as conversas cresceram. Vieram os cafés rápidos, as risadas no meio de dias difíceis, as mensagens inesperadas que tornavam o dia menos pesado.
Gabriel não percebeu exatamente quando aconteceu. Mas, em algum momento silencioso entre uma conversa e outra, ele começou a sentir algo maior.
Era amor.
Não daqueles que chegam como tempestade, mas daqueles que nascem devagar, quase sem fazer barulho — como uma música suave que, quando percebemos, já tomou todo o ambiente.
Clara também sentia algo. Gabriel sabia disso. Não era imaginação.
Havia cuidado nas palavras, havia carinho nos gestos, havia uma presença que só existe quando duas pessoas realmente se importam.
Mas a vida, às vezes, não pergunta o que sentimos.
Clara tinha outro caminho. Outras responsabilidades. Um tempo que não era o mesmo tempo de Gabriel. Circunstâncias que não se dobravam à vontade do coração.
Não faltava sentimento.
Faltava espaço para ele existir.
E foi assim que Gabriel descobriu um dos silêncios mais difíceis da vida:
o amor que existe… mas não pode ficar.
Eles continuaram caminhando na mesma cidade cheia de gente. Continuaram trocando palavras gentis, sorrisos sinceros e aquele cuidado silencioso que nunca desapareceu.
Mas havia algo diferente.
Entre eles existia agora uma espécie de distância invisível — feita de tempo, escolhas e caminhos que não podiam se cruzar completamente.
Gabriel seguiu vivendo cercado de pessoas.
Mas às vezes, no meio da multidão, quando a cidade parecia barulhenta demais, ele lembrava de Clara.
E entendia uma coisa curiosa sobre o amor:
Nem todo amor que nasce foi feito para permanecer.
Alguns existem apenas para nos lembrar que, mesmo no meio da multidão, nosso coração ainda sabe reconhecer quando encontra alguém especial.
E, talvez, isso já seja uma forma de amor suficiente para uma vida inteira.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 003
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