Crônicas

E se

E se as respostas que você tanto procura nunca estiveram no passado… mas no jeito como você decide viver hoje? Entre dúvidas silenciosas, escolhas adiadas e caminhos que parecem nunca se encaixar, existe uma verdade simples — quase invisível — esperand

19/03/2026 às 22:04 Edição № 008/ 2026 22 leituras
Enviar por WhatsApp
E se

E se tivesse sido diferente?

A pergunta vinha sempre sem avisar, geralmente no fim do dia, quando o silêncio da casa parecia maior do que o próprio mundo. Lucas já estava acostumado com ela. Às vezes surgia no caminho de volta do trabalho. Outras, no meio de uma conversa que não deu certo. Quase sempre aparecia quando ele se sentia… fora do lugar.

E se tivesse escolhido outra profissão?
E se tivesse insistido naquele amor?
E se tivesse falado mais, ou menos, ou do jeito certo?
E se fosse mais decidido, mais seguro, mais… alguma coisa?

Lucas tinha essa estranha sensação de estar sempre chegando atrasado na própria vida.

No trabalho, nunca parecia suficiente. Sempre faltava algo — uma habilidade, uma atitude, uma coragem que ele não sabia de onde tirar. Nas amizades, era presente, mas nunca essencial. Estava ali, mas não era o primeiro a ser lembrado.

E no amor…

No amor, parecia sempre um passo fora do tempo. Ou chegava cedo demais, quando ainda não era recíproco. Ou tarde demais, quando já não havia mais espaço.

E então vinha o “E se…”.

Como um eco insistente.

E se eu tivesse sido diferente, talvez tudo tivesse dado certo.

Mas numa dessas noites comuns — dessas que não prometem nada — Lucas se pegou cansado. Não do dia. Não das pessoas.

Cansado das perguntas.

Sentado no sofá, olhando para o nada, ele percebeu algo simples. Quase bobo.

Todas aquelas perguntas tinham a mesma raiz.

Todas falavam de um Lucas que não existia.

Um Lucas mais corajoso. Mais preparado. Mais decidido. Mais perfeito.

Mas não dele.

E foi ali, naquele silêncio sem resposta, que outra pergunta apareceu. Diferente das outras.

Mais quieta.

Mais honesta.

E se… eu parar de tentar ser quem eu não sou?

Ele ficou alguns segundos sem saber o que fazer com aquilo.

Porque, pela primeira vez, não era uma pergunta sobre o passado. Nem sobre o que poderia ter sido.

Era sobre o agora.

Talvez ele não tivesse dado errado.
Talvez ele só estivesse tentando viver uma vida que não cabia nele.

No dia seguinte, nada mudou — pelo menos, não do lado de fora.

O trabalho era o mesmo. As pessoas também. As incertezas continuavam ali.

Mas Lucas fez algo diferente.

Falou menos do que “deveria”.
Falou mais do que “costumava”.
Disse “não” quando antes diria “talvez”.
E “sim” quando antes fugiria.

Nada grandioso.

Mas real.

E, pela primeira vez em muito tempo, o “E se…” não apareceu.

Porque ele não estava mais imaginando outra vida.

Estava vivendo a dele.

E, no fim, talvez a resposta fosse essa:

Algumas vidas não precisam de grandes mudanças.
Só de pequenas verdades.

E, às vezes, a maior delas é simples assim:

Parar de perguntar “E se…”
e começar a viver o que já é.


E. Mendes, em Goiânia.

Publicado na Edição Sequencial 008

Comentários ( 0)

Seja o primeiro a comentar.

Logo do Canal

Enoque Escritor no WhatsApp

Receba notificações de novos textos, crônicas e novidades em primeira mão direto no seu celular participando do nosso canal oficial.