Do Lado de Fora
Há encontros que não chegam fazendo barulho, mas mudam tudo em silêncio.
Quando chego em casa, é comum que a casa durma e eu permaneça acordado. Não que eu queira ficar acordado, mas é no silêncio e na calmaria da noite que surgem pensamentos e reflexões sobre como a vida se constrói pelos feitos… e pelos efeitos dos chutes que a gente dá.
Não dá pra reclamar. Ter ou não ter é, no fim, uma questão de ponto de vista. É isso que nos expõe ao mundo como ele é: com suas regras, suas classes sociais, onde o que você possui bens, influência, pode abrir portas por onde você deseja passar. Não ter essas chaves, por outro lado, é permanecer do lado de fora.
E não é que o lado de fora seja ruim. A exclusão, sim, é dolorosa, até porque é no meio externo que vivemos e nos comunicamos com mais facilidade. Mas estar do lado de fora também nos aproxima daquilo que realmente somos, sem os pesos de uma vida mundana.
Nesse contexto, o amor, quando verdadeiro, é tão surreal que chega a ser cômico… ou talvez apenas um sonho.
Foi nesse cenário que conheci Joana por quem, sem perceber, criei um grande apreço. Uma mulher calma, tranquila… que já nem sabia mais o que era o amor.
Então, quando a vi, apenas disse:
— Oi?
Ela levantou os olhos devagar, como quem retorna de um lugar distante. Não parecia surpresa, mas também não parecia esperar por ninguém. Apenas me olhou… com uma calma que, de tão firme, quase incomodava.
— Oi — respondeu, simples, sem pressa.
E foi ali que percebi: algumas pessoas não chegam fazendo barulho. Elas chegam como a noite… silenciosas, mas cheias de significado.
Sentei ao lado dela sem pedir licença. Não por falta de educação, mas porque parecia que aquele momento já estava combinado em algum lugar que a gente não entende.
— Você acredita em recomeços? — perguntei, sem saber exatamente por quê.
Ela sorriu de leve, daqueles sorrisos que não mostram os dentes, mas revelam uma alma cansada.
— Acredito… mas não como antes. Hoje, eu acho que recomeçar não é começar de novo. É só continuar… de um jeito diferente.
Fiquei em silêncio. Não por falta de resposta, mas porque algumas verdades não pedem diálogo, pedem espaço.
A noite seguia como eu já conhecia: quieta, quase imóvel. Mas, pela primeira vez, não era só ela que me fazia pensar. Era a presença dela ali tão simples, tão inteira dentro do próprio silêncio.
— E você? — ela perguntou. — Por que ainda está acordado?
Olhei para frente, sem encarar nada específico.
— Acho que, durante o dia, a gente vive do jeito que dá… mas é à noite que a gente entende do jeito que foi.
Ela assentiu, como quem já sabia.
E naquele instante, percebi que talvez o “lado de fora”, aquele de que eu tanto falava não fosse um lugar físico. Talvez fosse o espaço entre o que a gente mostra… e o que a gente sente.
E Joana… bem, Joana parecia morar exatamente ali.
Entre o silêncio e a verdade.
Entre o que já foi… e o que ainda dói.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não me senti do lado de fora.
Mas entendi, ali mesmo, em silêncio…
que algumas pessoas não chegam pra ficar.
Chegam só pra te encontrar.
E. Mendes, em Goiânia.
Publicado na Edição Sequencial 022
Comentários ( 3)
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